Transição civilizada premia governo do déficit zero
Temos um governador eleito. A transição será feita com civilidade, como é de bom alvitre. Os candidatos foram esmiuçados em suas propostas, suas ideias e suas chances. Mas quem estava no Piratini e lá continua até o final de 2010 pouco destaque ganhou nos quesitos sobre o que fez, como se saiu e o que lhe resta. Para a governadora Yeda Crusius, derrotada, só o tempo lhe fará justiça. Sua vida pessoal e o seu patrimônio imobiliário tiveram mais destaque do que o saneamento das finanças do endividado Rio Grande do Sul. Para ela, poucos deram o obséquio da dúvida ou da boa vontade pelo que estava fazendo, acabando com o déficit que sufocava o Estado. O Tesouro não tinha, até 2008, como bancar sequer o essencial. Acontece que a racionalidade, a linguagem, a descrição e os argumentos usados por Yeda Crusius foram desdenhados. Mesmo quando bateu o ovo de Colombo sobre a mesa das finanças e provou que era possível zerar o déficit, começar a pagar os precatórios e os fornecedores e iniciar um programa rodoviário, as críticas aumentaram. Mas os argumentos da primeira mulher que assumiu o Piratini baseavam-se na realidade e se dirigiam a uma audiência de todos os gaúchos. Isso pressupunha um realismo difícil de se aceitar. Mas a negação do realismo – que continuou e ainda persiste quanto às iniciativas no sistema prisional, nas rodovias e na revitalização do Cais Mauá – é como não admitir nem as obras de arte. Beira à megalomania, que, segundo alguns, é a mais difundida doença ocupacional dos políticos contemporâneos. Esqueceram que a governadora não estava diante de uma plateia de desinteressados, de leigos obtusos no Rio Grande. Por isso mesmo ela não conseguiu, e nem desejava, explorar a credulidade, a ignorância ou a dependência do poder da população em geral. Muito menos dos seus adversários políticos. Porém assistimos a um quase ceticismo organizado que ainda se mantém sobre a verdade administrativa estadual. Claro que Yeda Crusius não tinha poder para decretar a realidade dos fatos que anunciava. Mesmo que a realidade se impusesse. Professora de economia, apresentava os fatos com a integridade intelectual que lhe era inerente. Talvez daí adviesse a sua áurea de autoritária. Não tinha como responder, um por um, aos que duvidavam de números. Agia na política como fazia na comunidade acadêmica cultural, ainda que situações heterogêneas. Max Weber ensinou que não há como se agir simultaneamente com ambas as situações, ou seja, na sala de aula como no governo, “porque o profeta e o demagogo não pertencem à cátedra acadêmica”. Só houve uma maneira para que a governadora defendesse racionalmente as suas propostas, mostrando as suas consequências lógicas no progresso do Estado. Exibia a fertilidade do que era feito e estava sendo programado para elucidar assuntos em que só valia a teoria do conhecimento. No entanto, a razão só entende aquilo que produz segundo os seus próprios interesses. Yeda Crusius, durante o seu governo, teve a disposição para ouvir argumentos e aprender com a experiência. Admitiu que pudesse ter errado aqui ou ali e que alguns dos seus críticos estivessem certos. Assim, com um esforço conjunto, ambos antagonistas poderiam encontrar a verdade administrativa do Rio Grande do Sul.

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